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segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Raul Brandão - Luz e Cor

Luz e Cor

(De Os Pescadores, de Raul Brandão)


O mar às vezes parece um véu diáfano, outras pó verde. Às vezes é dum azul transparente, outras cobalto. Ou não tem consistência e é céu, ou é confusão e cólera. De manhã desvanece-se, de tarde sonha. E há dias de nevoeiro em que ele é extraordinário, quando a névoa espessa pouco a pouco se adelgaça e surge atrás da última cortina vaporosa, todo verde, dum verde que apetece respirar. Diferentes verdes bóiam na água, esbranquiçados, transparentes, escuros, quase negros, misturados com restos de onda que se desfaz e redemoinha até longe. E ainda outros azulados, com a cor das podridões. Tudo isto graduado e dependendo do céu, da hora e das marés. Há momentos em que me julgo metido dentro de uma esmeralda, e, depois, numa jóia esplêndida, dum azul único que se incendeia. Mas a luz morre, e a luz agonizando exala-se como um perfume. É uma grande flor que desfalece. O doirado não é simplesmente doirado, nem o verde simplesmente  verde: possuem um alma delicada e extática.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Leitura - Um parágrafo de Camus

Tenho estado a ler La Peste. Encontrei o trecho seguinte, um parágrafo da segunda parte do livro, de que vos proponho a leitura. Mantenho-o em francês. Estamos numa cidade em quarentena devido à peste, isolada do resto do mundo, não se sabe por quanto tempo.

"Dans ces extremités de la solitude, enfin, personne ne pouvait espérer l'aide du voisin et chacun restait seul avec sa préoccupation. Si l'un d'entre nous, par hasard, essayait de se confier ou de dire quelque chose de son sentiment, la réponse qu'il recevait, quelle qu'elle fût, le blessaient la plupart du temps. Il s'apercevait alors que son interlocuteur et lui ne parlaient pas de la même chose. Lui, en effet, s'exprimait du fond de longues journées de rumination et de souffrances et l'image qu'il voulait communiquer avait cuit longtemps au feu de l'attente et de la passion. L'autre, au contraire, imaginait une émotion conventionelle, la douleur qu'on vend sur les marchés, une mélancolie de série. Bienveillante ou hostile, la réponse tombait toujours à faux, il fallait y renoncer. Ou du moins, pour ceux à qui le silence était insupportable, et puisque les autres ne pouvaient trouver le vrai langage du coeur, ils se résignaient à adopter la langue des marchés et à parler, eux aussi, sur le mode conventionnel, celui de la simple relation et du fait divers, de la chronique quotidienne en quelque sorte. Là encore, les douleurs les plus vraies prirent l'habitude de se traduire dans les formules banales de la conversation. C'est à ce prix seulement que les prisonniers de la peste pouvaient obtenir la compassion de leur concierge ou l'intéret de leurs auditeurs." 

Li este trecho na edição da Gallimard, Collection Folio, impressa em 1972. La Peste, como sabem, saiu à estampa pela primeira vez em 1947. Albert Camus nasceu na Argélia em 1913 e morreu em 1960 num desastre de automóvel . Foi jornalista, dramaturgo, romancista, ensaísta e filósofo. Prémio Nobel da Literatura em 1957.