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sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Mais Serviços Públicos a privatizar?

Transcrevo, com a devida vénia, do jornal The Nation de ontem, 1 de Novembro de 2007, um artigo da Naomi Klein, que realmente parece ser uma senhora que não hesita em dizer as verdades:


lookout by Naomi Klein
Rapture Rescue 911: Disaster Response for the Chosen
[from the November 19, 2007 issue]

I used to worry that the United States was in the grip of extremists who sincerely believed that the Apocalypse was coming and that they and their friends would be airlifted to heavenly safety. I have since reconsidered. The country is indeed in the grip of extremists who are determined to act out the biblical climax--the saving of the chosen and the burning of the masses--but without any divine intervention. Heaven can wait. Thanks to the booming business of privatized disaster services, we're getting the Rapture right here on earth.
Just look at what is happening in Southern California. Even as wildfires devoured whole swaths of the region, some homes in the heart of the inferno were left intact, as if saved by a higher power. But it wasn't the hand of God; in several cases it was the handiwork of Firebreak Spray Systems. Firebreak is a special service offered to customers of insurance giant American International Group (AIG)--but only if they happen to live in the wealthiest ZIP codes in the country. Members of the company's Private Client Group pay an average of $19,000 to have their homes sprayed with fire retardant. During the wildfires, the "mobile units"--racing around in red firetrucks--even extinguished fires for their clients.
One customer described a scene of modern-day Revelation. "Just picture it. Here you are in that raging wildfire. Smoke everywhere. Flames everywhere. Plumes of smoke coming up over the hills," he told the Los Angeles Times. "Here's a couple guys showing up in what looks like a firetruck who are experts trained in fighting wildfire and they're there specifically to protect your home."
And your home alone. "There were a few instances," one of the private firefighters told Bloomberg News, "where we were spraying and the neighbor's house went up like a candle." With public fire departments cut to the bone, gone are the days of Rapid Response, when everyone was entitled to equal protection. Now, increasingly intense natural disasters will be met with the new model: Rapture Response.
During last year's hurricane season, Florida homeowners were offered similarly high-priced salvation by HelpJet, a travel agency launched with promises to turn "a hurricane evacuation into a jet-setter vacation." For an annual fee, a company concierge takes care of everything: transport to the air terminal, luxurious travel, bookings at five-star resorts. Most of all, HelpJet is an escape hatch from the kind of government failure on display during Katrina. "No standing in lines, no hassle with crowds, just a first class experience."
HelpJet is about to get some serious competition from some much larger players. In northern Michigan, during the same week that the California fires raged, the rural community of Pellston was in the grip of an intense public debate. The village is about to become the headquarters for the first fully privatized national disaster response center. The plan is the brainchild of Sovereign Deed, a little-known start-up with links to the mercenary firm Triple Canopy. Like HelpJet, Sovereign Deed works on a "country-club type membership fee," according to the company's vice president, retired Brig. Gen. Richard Mills. In exchange for a one-time fee of $50,000 followed by annual dues of $15,000, members receive "comprehensive catastrophe response services" should their city be hit by a manmade disaster that can "cause severe threats to public health and/or well-being" (read: a terrorist attack), a disease outbreak or a natural disaster. Basic membership includes access to medicine, water and food, while those who pay for "premium tiered services" will be eligible for VIP rescue missions.
Like so many private disaster companies, Sovereign Deed is selling escape from climate change and the failed state--by touting the security clearance and connections its executives amassed while working for that same state. So Mills, speaking recently in Pellston, explained, "The reality of FEMA is that it has no infrastructure, and a lot of our National Guard is elsewhere." Sovereign Deed, on the other hand, claims to have "direct access and special arrangements with several national and international information centers. These proprietary arrangements allow our Emergency Operations Center to...give our Members that critical head start in times of crisis." In this secular version of the Rapture, God's hand is unnecessary. Not when you have retired ex-CIA agents and ex-Special Forces lifting the chosen to safety--no need to pray, just pay. And who needs a celestial New Jerusalem when you can have Pellston, with its flexible local politicians and its surprisingly modern regional airport?
Sovereign Deed could soon find itself competing with Blackwater USA, whose CEO, Erik Prince, wrote recently of his plans to offer "full spectrum" services, including humanitarian aid in disasters. When fires broke out in San Diego County, near the proposed site of the controversial Blackwater West base, the company immediately seized the opportunity to make its case. Blackwater could have been the "tactical operation center for East County fires," said company vice president Brian Bonfiglio. "Can you imagine how much of a benefit it would be if we were operational now?" To show off its capacity, Blackwater has been distributing badly needed food and blankets to people of Potrero, California. "This is something we've always done," Bonfiglio said. "This is what we do." Actually, what Blackwater does, as Iraqis have painfully learned, is not protect entire communities or countries but "protect the principal"--the principal being whoever has paid Blackwater for its guns and gear.
The same pay-to-be-saved logic governs this entire new sector of country club disaster management. There is, of course, another principle that could guide our collective responses in a disaster-prone world: the simple conviction that every life is of equal value.
For anyone out there who still believes in that wild idea, the time has urgently arrived to protect the principle.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Editorial do Expresso de 5 de Outubro de 2007

Intitula-se este editorial "Estado e crise dos partidos". Diz a certa altura: "Por isso, sempre que se fala da crise dos partidos, do desinteresse da política, da falta de empenho cívico, fala-se, ainda que inconscientemente, do peso do Estado." A seguir relaciona o peso do Estado com o desinteresse dos jovens com competências pelos partidos (infere-se do texto que o editorialista se refere sobretudo ao PS e ao PSD), porque "ali não se trata de sonhos, de ideias, de vida, mas de empregos, de sinecuras, de 'tachos'. O editorialista atribui a crise dos partidos a este desinteresse dos jovens. E acaba a dizer que romper com o círculo formado pelo desinteresse dos jovens com competências pelos partidos - crise dos partidos - máquina do Estado alimentada pela máquina dos partidos - sensação de as ideias não valerem nada, nem o mérito ou o esforço - desinteresse dos jovens com competências, "Romper com esse círculo é fazer a reforma do Estado. Diminuir o seu peso, torná-lo transparente, dotá-lo de uma espinha dorsal profissional (e não de membros do aparelho político que está no poder).
Este raciocínio tem várias falhas. A primeira (e talvez a principal) é que omite que o actual estado de coisas se deve sobretudo à desideologização dos partidos, que quando estão no poder ou lá perto, são máquinas de ganhar eleições, e encaram o Estado como o meio para recompensar as suas clientelas, distribuindo lugares e benesses a quem os apoiou. Assim não há lugar para desenvolver políticas adequadas aos interesses do povo, até porque muitas vezes vão bulir directamente com interesses estabelecidos.
Outra falha é esquecer que os jovens estão a ser formados nas escolas não para desenvolverem políticas de interesse, mas sim para conseguirem bons lugares quando chegaram ao chamado mercado de trabalho. E isto na melhor das hipóteses. Os jovens aprendem na própria escola (ou fora dela) que para conseguirem o emprego de que precisam para sobreviver têm de estar ligados a boas influências, que é claro abundam mais nos partidos do poder ou em outras esferas tradicionais. Para conseguirem o tal emprego convem que sejam bem falantes, mas com ideias pouco heterodoxas.
É interessante contudo a referência à necessidade de o Estado ter uma espinha dorsal profissional. As medidas chamadas de reforma tomadas nos últimos anos apontam no sentido do enfranquecimento das estruturas profissionais existentes no Estado (na realidade resumem-se a reduzir regalias dos funcionários, e preparar o encerramento de serviços e despedimentos em grande escala). Passar por cima disto é, consciente ou inconscientemente, tentar iludir as pessoas. A não ser que o editorialista se queira apresentar como não pertencendo à área do poder, o que é estranho, não só tendo em conta a conhecida conotação do Expresso com o PSD (partido desde a sua fundação muito ligado ao Estado português), como também por uma tecla em que ele, editorialista, toca, e que tem sido insistentemente batida pelos partidos de direita e pelo PS (que muito boa gente também coloca na direita), ao fim e ao cabo, os partidos do poder. É a questão do peso do Estado, que acha ser necessário diminuir. Sem querer entrar agora na discussão profunda do assunto, cumpre dizer que querer diminuir o peso do estado, sem referir os objectivos que se pretende atingir (que não exclusivamente financeiros) com essa redução, os critérios utilizados para cortar nos serviços e as salvaguardas a criar para as populações afectadas, é o que tem sido feito ultimamente pelos governos PS e PSD-CDS. Faz-se o reparo que nada tem sido feito em prol da tal espinha dorsal profissional, a não ser dizer, aberta ou veladamente, aos profissionais dos serviços públicos, que fariam melhor em procurar emprego noutro lado.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Os McCann e os funcionários públicos portugueses

Hoje, no Jornal de Notícias, veio um texto curto do Manuel António Pina intitulado "Por conta dos McCann". Em poucas palavras resume as expectativas que ficam depois da demissão do coordenador da investigação do caso Maddie. Resume muito bem, e acaba com esta frase "Não custa pois a crer que, um dia destes, a PJ já esteja também a investigar por conta dos McCann e tudo volte finalmente à normalidade".

Este caso devia ser analisado pelos sindicatos, pelos partidos e por todos os que se interessam pela situação em que vivem os funcionários públicos. E mais ainda pelos que se interessam pelo funcionamento dos serviços públicos, e procuram criar condições para que estes possam para atingir os objectivos para que foram criados. Pois o que sucedeu ao Gonçalo Amaral é o que espera todos os funcionários que, em Portugal, levam a sério o seu trabalho e procuram cumprir com o seu serviço. E, neste caso, pelo menos até à data, e partindo de um certo prisma, parece que os chefes ainda não chatearam muito o homem. Foi insultado pelos jornais ingleses, teve uma reacção descontrolada, e apenas foi afastado da coordenação do processo. Ainda não lhe pregaram um processo disciplinar, nem falaram em correr com ele da função pública. Contudo, temo muito que lá chegarão.

O Gonçalo Amaral enfrenta um casal inglês, bem relacionado, bem parecido, bem aconselhado e que parece bastante determinado. É óbvio (muito mais óbvio que as razões que levaram ao afastamento de Gonçalo Amaral do processo) que a Maddie já não está neste mundo. Eu pessoalmente desejo estar enganado. Contudo, basta pensar no dinheiro que tem circulado em todo este processo para chegar ao ponto seguinte: se a pobre Maddie ainda estivesse neste mundo os eventuais raptores, ou alguém por eles, já teriam aparecido a reclamar a recompensa. Era bom que isto não fosse verdade. Contudo, o senso comum mais elementar diz-nos que infelizmente é verdade. E não me debruço sobre o modo como os pais têm procedido.

Já não vamos conseguir trazer a Maddie de volta, estou convicto. Contudo há coisas que é preciso reflectir. Não quero agora falar do papel deplorável da comunicação social, que o Daniel Oliveira já resumiu muito bem. Limito-me a referir que o caso Maddie põe em evidência, muito em evidência, a necessidade urgente de rever a maneira como o papel que os funcionários públicos desempenham, quando procuram cumprir os objectivos dos serviços, é avaliado e acompanhado pelos seus superiores hierárquicos, e pelos serviços em geral. Eu não acredito em sistemas de irresponsabilização. Mas é indispensável haver um mínimo de segurança na acção concreta, e dar a sequência devida aos resultados obtidos.

A "normalidade" que Manuel António Pina refere, muito a propósito, consiste em enterrar os resultados de muito e bom trabalho, sobretudo quando vai contra interesses, na maior parte das vezes não tão claros como no caso desta pobre criança. O combate a essa "normalidade" trará contributos muito mais significativos que todas as chamadas reformas desenvolvidas nos últimos anos sob o pretexto de querer melhorar a administração pública.