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sábado, 31 de dezembro de 2011

Morre lentamente quem não viaja, por Pablo Neruda

       



              Morre lentamente quem não viaja,

           Quem não lê,

           Quem não ouve música,

           Quem destrói o seu amor-próprio,

           Quem não se deixa ajudar.



           Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,

           Repetindo todos os dias o mesmo trajecto,

           Quem não muda as marcas no supermercado,

           não arrisca vestir uma cor nova,

           não conversa com quem não conhece.



           Morre lentamente quem evita uma paixão,

           Quem prefere O "preto no branco"

           E os "pontos nos is" a um turbilhão de emoções indomáveis,

           Justamente as que resgatam brilho nos olhos,

           Sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.



           Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,

           Quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,

           Quem não se permite,

           Uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.



           Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da Chuva incessante,

           Desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,

           não perguntando sobre um assunto que desconhece

           E não respondendo quando lhe indagam o que sabe.



           Evitemos a morte em doses suaves,

           Recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o

           Simples acto de respirar.

           Estejamos vivos, então!



sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Linha Inquebrável, de Fiama Hasse Pais Brandão (1938 - 2007)






O plátano, o poço, em cada reino
são a mediação do húmido e da flora.
Uma horda invade, o vento absorve
a folha digitada: mão
que, à beira, oferece o gládio ao próximo,
ao alheio; o huno vence
o huno; o cuteleiro cria
o símbolo inox; habitam, habita-se as arcas
que o inverno transmutou em hastes.
Que boca sustentar entre esta mina funda
e o omnívoro rebento?
Que procriar, num espaço com dois pólos,
poço, plátano e a atracção fono-
gráfica: ouves a terra com os pilares de hélio,
com um reino e o habitante
sem o nexo. No magro inverno o espólio
é o ventre (de palavras) dourado nesta tarde em
que nada é vão. E o vão está cavado
em poliester.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Arte Poética - catacrese

Com este título apresentei um texto no Estrolábio no dia 6 de Setembro de 2010. Vejam se gostam, em estrolabio.blogspot.com/2010/09/arte-poetica- catacrese.html.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Poesia - A Vamp



Era uma vez, sozinho, numa noite
Escura, cerrada, sem luar
Daquelas em que não há quem se afoite
A sair à rua, nem para ver o mar

Na varanda a fumar um cigarro
Cosido à parede, bem abrigado
Ao ver passar, lentamente, um carro
Ao volante uma vamp com ar chateado

Pensei que talvez procurasse alguém
Desci a minha escada a correr
E disse-lhe que procurava eu também

Deu uma gargalhada e respondeu
Que até preferia já ali morrer
Do que aturar um teso como eu


Ver Estrolábio, 23 de Agosto de 2010, http://estrolabio.blogspot.com/2010/08/joao-machado-e-vamp-no-espaco-verbarte.html 

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Friedrich Nietzsche (1844-1900)

Du ein Dichter? Du ein Dichter?
Stehts mit deinem Kopf so schlecht?
- "Ja, mein Herr, Sie sind ein Dichter"
Achselzuckt der Vogel Specht.

De Poemas, organização de Paulo Quintela
Centelha, Coimbra, 1981

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Almeida Garrett (1799-1854)

Barca Bela



Pescador de barca bela
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela, 
Ó pescador?


Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Ó pescador!


Deita o lanço com cautela, 
Que a sereia canta bela ...
Mas cautela, 
Ó pescador!


Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Ó pescador.


Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela
Ó pescador!

De Folhas Caídas (1853)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Rimbaud, Arthur (1854-91)

Bateau Ivre

Comme je descendais des Fleuves impassibles,
Je ne me sentis plus guidé par les haleurs :
Des Peaux-Rouges criards les avaient pris pour cibles,
Les ayant cloués nus aux poteaux de couleurs.

J'étais insoucieux de tous les équipages,
Porteur de blés flamands ou de cotons anglais,
Quand avec mes haleurs ont fini ces tapages,
Les fleuves m'ont laissé descendre où je voulais.

Dans les clapotements furieux des marées,
Moi, l'autre hiver, plus sourd que les cerveaux d'enfants,
Je courus ! et les Péninsules démarrées
N'ont pas subi tohu-bohus plus triomphants

La tempête a béni mes éveils maritimes.
Plus léger qu'un bouchon j'ai dansé sur les flots
Qu'on appelle rouleurs éternels de victimes,
Dix nuits, sans regretter l'oeil niais des falots.

Plus douce qu'aux enfants la chair des pommes sures,
L'eau verte pénétra ma coque de sapin
Et des taches de vins bleus et des vomissures
Me lava, dispersant gouvernail et grappin.

Et, dès lors, je me suis baigné dans le poème
De la mer infusé d'astres et lactescent,
Dévorant les azurs verts où, flottaison blême
Et ravie, un noyé pensif, parfois, descend;

Où, teignant tout à coup les bleuités, délires
Et rhythmes lents sous les rutilements du jour,
Plus fortes que l'alcool, plus vastes que vos lyres,
Fermentent les rousseurs amères de l'amour !

Je sais les cieux crevant en éclairs, et les trombes
Et les ressacs et les courants; je sais le soir,
L'aube exaltée ainsi qu'un peuple de colombes,
Et j'ai vu quelquefois ce que l'homme a cru voir.

J'ai vu le soleil bas taché d'horreurs mystiques
Illuminant de longs figements violets,
Pareils à des acteurs de drames très antiques,
Les flots roulants au loin leurs frissons de volets.

J'ai rêvé la nuit verte aux neiges éblouies,
Baisers montant aux yeux des mers avec lenteur,
La circulation des sèves inouies
Et l'éveil jaune et bleu des phosphores chanteurs.

J'ai suivi, des mois pleins, pareille aux vacheries
Hystériques, la houle à l'assaut des récifs,
Sans songer que les pieds lumineux des Maries
Pussent forcer le muffle aux Océans poussifs.

J'ai heurté, savez-vous? d'incroyables Florides
Mêlant aux fleurs des yeux de panthères aux peaux
D'hommes, des arcs-en-ciel tendus comme des brides,
Sous l'horizon des mers, à de glauques troupeaux.

J'ai vu fermenter les marais, énormes nasses
Où pourrit dans les joncs tout un Léviathan,
Des écroulements d'eaux au milieu des bonaces
Et les lointains vers les gouffres cataractant!

Glaciers, soleils d'argent, flots nacreux, cieux de braises,
Échouages hideux au fond des golfes bruns
Où les serpents géants dévorés des punaises
Choient des arbres tordus avec de noirs parfums!

J'aurais voulu montrer aux enfants ces dorades
Du flot bleu, ces poissons d'or, ces poissons chantants,
Des écumes de fleurs ont béni mes dérades,
Et d'ineffables vents m'ont ailé par instants.

Parfois, martyr lassé des pôles et des zones,
La mer, dont le sanglot faisait mon roulis doux,
Montait vers moi ses fleurs d'ombre aux ventouses jaunes
Et je restais ainsi qu'une femme à genoux,

Presque'île ballotant sur mes bords les querelles
Et les fientes d'oiseaux clabaudeurs aux yeux blonds,
Et je voguais lorsqu'à travers mes liens frêles
Des noyés descendaient dormir à reculons...

Or, moi, bateau perdu sous les cheveux des anses,
Jeté par l'ouragan dans l'éther sans oiseau,
Moi dont les Monitors et les voiliers des Hanses
N'auraient pas repêché la carcasse ivre d'eau,

Libre, fumant, monté de brumes violettes,
Moi qui trouais le ciel rougeoyant comme un mur
Qui porte, confiture exquise aux bons poètes,
Des lichens de soleil et des morves d'azur,

Qui courais taché de lunules électriques,
Planche folle, escorté des hippocampes noirs,
Quand les Juillets faisaient crouler à coups de triques
Les cieux ultramarins aux ardents entonnoirs,

Moi qui tremblais, sentant geindre à cinquante lieues
Le rut des Béhémots et des Maelstroms épais,
Fileur éternel des immobilités bleues,
Je regrette l'Europe aux anciens parapets.

J'ai vu des archipels sidéraux! et des îles
Dont les cieux délirants sont ouverts au vogueur:
Est-ce  en ces nuits sans fond que tu dors et'exiles,
Million d'oiseaux d'or, ô future Vigueur?

Mais, vrai, j'ai trop pleuré. Les aubes sont navrantes,
Toute lune est atroce et tout soleil amer.
L'âcre amour m'a gonflé de torpeurs enivrantes.
Oh! que ma quille éclate! Oh! que j'aille à la mer!

Si je désire une eau d'Europe, c'est la flache
Noire et froide où vers le crépuscule embaumé
Un enfant accroupi, plein de tristesse,  lâche
Un bateau frêle comme un papillon de mai,

Je ne puis plus, baigné de vos langueurs, ô lames,
Enlever leur sillage aux porteurs de cotons,
Ni traverser l'orgueil des drapeaux et des flammes,
Ni nager sous les yeux horribles des pontons!

Oeuvres de Arthur Rimbaud, Paris, Mercvre de France, 1924.

Citação por Hugh Pratt, nas Etiópicas.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Livro Poesia Africana di Rivolta

Este livro foi editado em 1969, pela editora Laterza, de Bari. A edição foi orientada por Giuseppe Tavani, que também se encarregou das traduções, com a colaboração de Maria Vargas, a qual, segundo algumas informações que me deram, seria na verdade Maria Lamas, a jornalista, autora e activista política. Inclui poemas de Agostinho Neto, Costa Andrade, José Craveirinha, Kaoberdiano Dambará, Alda do Espírito Santo, Aguinaldo Fonseca, Mário Fonseca, Armando Guebusa, António Jacinto, Marcelino dos Santos, Gabriel Mariano, Ovídio Martins, Rui de Noronha, Jorge Rebelo, Aires de Almeida Santos, Arnaldo Santos, Onésimo Silveira, Noémia de Sousa, Francisco-José Tenreiro, Sérgio Vieira.

O livro foi-me emprestado pelo Manuel Simões, a quem muito agradeço. Tem uma interessante introdução da autoria do ensaísta angolano Mário de Andrade (Mário Pinto de Andrade, 1928-1990), que também escreveu um apêndice La Poesia Africana di Espressione Portoghese. A seguir uma cronologia da repressão e da revolta armada, elaborada por Maria Vargas, seguindo-se umas notas bio-bibliográficas sobre os autores seleccionados. Termina com um glossário das palavras africanas não traduzidas, algumas das quais são puramente e simplesmente palavras portuguesas.

Permito-me transcrever aqui, com a devida vénia, um poema de Gabriel Mariano, poeta de S. Nicolau de Cabo Verde, (José Gabriel Lopes da Silva, 1928-2002), que figura na página 106 de Poesia Africana di Rivolta.

Capataz de escravos
é o que tu és meu irmão comissário.

Não os vês seguindo
nos porões seguindo?
Quem dizes tu que eles são
nos porões dormindo?
Quem dizes tu que eles são
nos porões comendo?
Quem dizes tu que eles são
nos porões cantando?

Quem dizes tu que eles são comissário ad hoc? Porcos?

Porco, não, comissário ad hoc
porco não canta.
Eles os que seguem nos porões cantando
são homens de carne como tu irmão
de carne e nervos como tu irmão.

Tu segues em camarote fino, reservado, preparado irmão

tu segues em camarote fino
e eles nos porões cantando.

Tu o que és comissário
irmão de sangue, irmão de sofrimento
tu o que és (choremos lágrimas na traição comum)
tu o que és...

Capataz de escravos é o que tu és
Comissário Ad Hoc.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Álvaro de Campos

APOSTILA

Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo para que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha ...
O trabalho honesto e superior...
O trabalho à Virgílio, à Milton...
Mas é tão difícil ser honesto ou ser superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos - nem mais nem menos -
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo, que se não vê)...
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil...
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos -
Imagens da vida, imagens das vidas, imagem da Vida...

Verbalismo...
Sim, verbalismo...
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça...
Não ter um acto indefinido nem factício...
Não ter um movimento desconforme com propósitos...
Boas-maneiras da alma...
Elegância de persistir...

Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como um mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Mau canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?

(Passageira que viajavas tantas vezes no mesmo compartimento comigo
No comboio suburbano,
Chegaste a interessar-te por mim?
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter?
Qual foi a vida que houve nisto? Que foi isto à vida?)

Aproveitar o tempo!...
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisas,
A poeira de uma estrada, involuntária e sozinha,
O regato casual das chuvas que vão acabando,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,
E oscila, no mesmo movimento que o da terra,
E estremece, no mesmo movimento que o da alma,
E cai como caem os deuses, no chão do Destino.


Obrigado ao Fernando Cabral Martins, "Ficções do Interlúdio". Ed. Assírio & Alvim. 1998.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Edgar Allan Poe - 1809 - 1949 - Annabel Lee

 It was many and many a year ago,
   In a kingdom by the sea,
That a maiden there lived whom you may know
   By the name of ANNABEL LEE;--
And this maiden she lived with no other thought
   Than to love and be loved by me.
She was a child and I was a child,
   In this kingdom by the sea,
But we loved with a love that was more than love--
   I and my Annabel Lee--
With a love that the winged seraphs of heaven
   Coveted her and me.

And this was the reason that, long ago,
   In this kingdom by the sea,
A wind blew out of a cloud by night
   Chilling my Annabel Lee;
So that her high-born kinsman came
   And bore her away from me,
To shut her up in a sepulchre
   In this kingdom by the sea.

The angels, not half so happy in Heaven,
   Went envying her and me:--
Yes! that was the reason (as all men know,
   In this kingdom by the sea)
That the wind came out of a cloud, chilling
   And killing my Annabel Lee.

But our love it was stronger by far than the love
   Of those who were older than we--
   Of many far wiser than we-
And neither the angels in Heaven above,
   Nor the demons down under the sea,
Can ever dissever my soul from the soul
   Of the beautiful Annabel Lee:--

For the moon never beams without bringing me dreams
   Of the beautiful Annabel Lee;
And the stars never rise but I see the bright eyes
   Of the beautiful Annabel Lee;
And so, all the night-tide, I lie down by the side
Of my darling, my darling, my life and my bride,
   In her sepulchre there by the sea--
   In her tomb by the side of the sea.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

João Cabral de Melo Neto (1920 - 1999)

De A Psicologia da Composição (1946-47):

...

É mineral o papel
onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.

São minerais
as flores e as plantas,
as frutas, os bichos
quando em estado de palavra.

É mineral
a linha do horizonte,
nossos nomes, essas coisas
feitas de palavras.

É mineral, por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza

da palavra escrita.

...



Com cumprimentos a Luiz Alberto Machado, do Sobresites

sábado, 29 de dezembro de 2007

Fernando Pessoa

Mensagem



OS TEMPOS


NOITE


A nau de um deles tinha-se perdido
No mar indefinido.
O segundo pediu licença ao Rei
De, na fé e na lei
Da descoberta, ir em procura
Do irmão no mar sem fim e a névoa escura.
Tempo foi. Nem primeiro nem segundo
Volveu do fim profundo
Do mar ignoto à pátria por quem dera
O enigma que fizera.
Então o terceiro a El-Rei rogou
Licença de os buscar, e El-Rei negou.
Como a um cativo, o ouvem a passar
Os servos do solar.
E, quando o vêem, vêem a figura
Da febre e da amargura,
Com fixos olhos rasos de ânsia
Fitando a proibida azul distância.
Senhor, os dois irmãos do nosso Nome
O Poder e o Renome -
Ambos se foram pelo mar da idade
À tua eternidade;
E com eles de nós se foi
O que faz a alma poder ser de herói.
Queremos ir buscá-los, desta vil
Nossa prisão servil:
É a busca de quem somos, na distância
De nós; e, em febre de ânsia,
A Deus as mãos alçamos.
Mas Deus não dá licença que partamos

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Fernando Pessoa

Ricardo Reis

Nada Fica
Nada fica de nada.
Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.
Leis feitas, estátuas vistas, odes findas -
Tudo tem cova sua.
Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada.

domingo, 18 de novembro de 2007

Gerontion, de Thomas Stearns Eliot


Thou hast nor youth nor age
But as it were an after dinner sleep
Dreaming of both.

Here I am, an old man in a dry month,
Being read to by a boy, waiting for rain.
I was neither at the hot gates
Nor fought in the warm rain
Nor knee deep in the salt marsh, heaving a cutlass,
Bitten by flies, fought.
My house is a decayed house,
And the Jews squats on the window-sill, the owner,
Spawned in some estaminet of Antwerp,
Blistered in Brussels, patched and peeled in London.
The goat coughs at night in the field overhead;
Rocks, moss, stonecrop, iron, merds.
The woman keeps the kitchen, makes tea,
Sneezes at evening, poking the peevish gutter.
I an old man,
A dull head among windy spaces.


T. S. Eliot, 1920


T. S. Eliot (1888-1965), recebeu o prémio Nobel da Literatura em 1948.
Transcrevi os versos acima de uma selecção tirada dos Collected Poems, editada pela Faber and Faber pela primeira vez em 1940. Esta edição data de 1999.

domingo, 14 de outubro de 2007

Olavo Bilac - A Um Poeta

Longe do estéril turbilhão da rua
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego

Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gémea da Verdade,
Arte Pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na sua simplicidade.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Mário de Sá Carneiro - canção de declínio

Um vago tom de opala debelou
Prolixos funerais de luto d'Astro
E pelo espaço, a Oiro se enfolou
O estandarte real - livre, sem mastro

Fantástica bandeira sem suporte,
Incerta, nevoenta, recamada -
A desdobrar-se como a minha Sorte
Predita por ciganos numa estrada ...

domingo, 7 de outubro de 2007

Luís Vaz Camões, Os Lusíadas, Canto V, 37

Porém já cinco Sóis eram passados
Que dali nos partíramos, cortando
Os mares nunca de outrem navegados,
Prosperamente os ventos assoprando,
Quando uma noite, estando descuidados
Na cortadora proa vigiando,
Uma nuvem que os ares escurece,
Sobre nossas cabeças aparece.